Nobel da Paz é concedido a médico e a ex-prisioneira do EI

O prêmio Nobel da Paz de 2018 foi concedido nesta sexta-feira ao médico congolês Denis Mukwege e à ativista yazidi Nadia Murad por seus esforços contra o uso de violência sexual como arma de guerra. 

         Ao anunciar a premiação, o comitê do Nobel afirmou que o ginecologista Mukwege, da República Democrática do Congo, tem sido "o símbolo principal e mais unificador tanto nacional quanto internacionalmente da luta para pôr fim ao uso de violência sexual em guerras e conflitos armados". 

         Nadia Murad, membro da minoria religiosa yazidi no Iraque, foi capturada pelo Estado Islâmico em 2014, estuprada repetidamente e sujeitada a outros abusos. Segundo o comitê, ela demonstrou "coragem incalculável ao recontar seu próprio sofrimento".

         "Denis Mukwege é o agente que devotou sua vida a defender essas vítimas. Nadia Murad é a testemunha que nos conta dos abusos cometidos contra ela e outros", afirmou Berit Reiss-Andersen, presidente do Comitê do Nobel.

"Ambos colocaram sua própria segurança pessoal em risco ao combater de forma corajosa crimes de guerra e assegurar justiça para as vítimas", acrescentou. "Um mundo mais pacífico só pode ser alcançado se as mulheres, sua segurança e os direitos fundamentais forem reconhecidos e preservados em tempos de guerra."

         A ONU celebrou o "anúncio fantástico, que ajudará a fazer avançar o combate contra a violência sexual como arma de guerra nos conflitos". "É uma causa muito importante para as Nações Unidas", afirmou a porta-voz da ONU em Genebra, Alessandra Vellucci.

         A premiação ocorre após um ano em que o abuso de mulheres esteve no centro do debate internacional.

         Questionada sobre se o movimento Me Too inspirou a premiação deste ano, Reiss-Andersen afirmou: "Me Too e crimes de guerra não são exatamente a mesma coisa. Mas eles têm em comum o fato de verem o sofrimento das mulheres, o abuso a mulheres, e é importante que mulheres deixem para trás o conceito de vergonha e falem."

         Mukwege lidera o hospital Panzi, na cidade de Bukavu, na República Democrática do Congo. Aberta em 1999, a clínica atende milhares de mulheres todos os anos, muitas das quais necessitam de cirurgia após a violência sofrida. Homens armados tentaram matá-lo em 2012, fazendo com que deixasse temporariamente o país.

         Aos 25 anos, Murad é a segunda laureada mais jovem na história do Nobel da Paz. A mais nova continua sendo a paquistanesa Malala. Ela foi capturada pelo Estado Islâmico ao lado das irmãs no vilarejo de Kocho, na província iraquiana de Sinjar, no norte do Iraque. Perdeu seis irmãos e a mãe quando os extremistas mataram todos os homens e todas as mulheres consideradas velhas demais para serem sexualmente exploradas. Murad conseguiu escapar após três meses.

         Em 2016, Murad obteve o prêmio de direitos humanos concedido pela União Europeia, o Sakharov, ao lado também yazidi Lamiya Aji Bashar. No mesmo ano, ela obteve o premiê de direitos Václav Havel, concedido pelo Conselho Europeu. 

         Aos 23 anos, ela foi indicada como a primeira Embaixadora da ONU para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico Humano. Em 2017, Murad publicou o livro de memórias "The Last Girl" ("A Última Menina", sem edição em português). "A certo ponto, havia estupro e nada mais. Isso se tornava seu dia normal", escreveu. 

         Estima-se que três mil mulheres e meninas yazidi tenham sido vítimas de violência sexual e outros abusos pelo Estado Islâmico.

         Mukewege e Murad não foram ainda informados da premiação pelo comitê. "Se vocês estão assistindo a esta cerimônia, meus parabéns." , disse um porta-voz da Academia Suica.

         O prêmio em 2018 é de 9 milhões de coroas suecas, o equivalente a US$ 1,01 milhão ou R$ 3,9 milhões. No ano passado, o premiado foi a Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares. 

         A premiação será entregue em Oslo em 10 de dezembro, aniversário da morte do industrial sueco Alfred Nobel, que criou a premiação em seu testamento, em 1895.  (do Valor Econômico)

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