IPCA fica perto de zero no mês e reflete retomada mais lenta

Mais uma vez a inflação ficou abaixo do esperado. Como se tornou rotina desde o ano passado, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, divulgado ontem pelo IBGE, subiu menos que o previsto ao marcar 0,09%.

         Foi a menor variação, para o mês, do indicador oficial de inflação desde o início do Plano Real. O consenso de mercado apontava 0,12%. Em 12 meses, a taxa de 2,68% se distanciou ainda mais do piso do sistema de metas (3%).

         Esse baixo nível de preços responde ao momento excepcional dos alimentos, que em 12 meses continuam em deflação, mas também à grande ociosidade na economia, que a lenta retomada da atividade custa em preencher.

         Para Fernando Gonçalves, gerente de Índices de Preços ao Consumidor do IBGE, com o emprego se recuperando mais pela via da informalidade, as famílias evitam elevar seus gastos.

         As incertezas políticas contribuem para isso. "Há insegurança sobre o caminho que a economia vai tomar. As pessoas tentam guardar alguma renda e toda essa situação retarda os investimentos", diz.

         Para o banco Votorantim, o mercado de trabalho explica a inflação de serviços, que sobe 3,93% em 12 meses. "Vemos a inflação do grupo recuando para cerca de 3,0% ao final do ano", diz relatório do banco.

         José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, ressalta que, além dos serviços, outros itens relacionados à atividade seguem rodando em níveis muito baixos. Ele cita os bens industriais (1,26% em 12 meses) e a média dos núcleos (3,06%).

         O IPCA em 12 meses, aponta, ficou abaixo do piso da meta pelo nono mês consecutivo. "E o efeito disso sobre a inércia e as expectativas é muito grande", diz ele, fator que deve influenciar taxas comportadas à frente.

         Mirella Hirakawa, economista do Santander, observa que as taxas baixas do IPCA neste ano também se beneficiam da inflação modesta de 2017 e das expectativas ancoradas. Salvo choques inesperados, é uma dinâmica que deve perdurar. "Sob essa ótica, há uma mudança de estrutura na inflação", afirma.

         Com poucos itens que saíram fora do script no IPCA de março -- alta maior que a esperada em alimentação fora do domicílio, por exemplo -- e poucas pressões à vista, pois há alguma preocupação com a desvalorização do câmbio, as projeções para este ano não saíram da casa dos 3,5%.

         Tudo somado, a taxa do mês passado corrobora mais um corte de 0,25 ponto na Selic, para 6,25% ao ano, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em maio.

         Reduções além dessa dependerão de dados adicionais de atividade. Neste sentido, as pesquisas mensais de comércio (PMC) e de serviços (PMS) referentes a fevereiro, que o IBGE divulga na quinta e na sexta-feira desta semana, ganham importância.

         O baixo nível da inflação fica mais evidente quando os chamados monitorados são retirados da conta. São preços estabelecidos por contratos ou órgãos públicos e, portanto, menos sensíveis aos movimentos de oferta e demanda.

         Sem eles, a inflação dos preços livres acumulou nos 12 meses até março alta de apenas 1,26%, desacelerando em 1,41% em fevereiro. Os preços livres "derretem" desde os 9,13% alcançados em agosto de 2016. Já os monitorados acumularam 7,05% em março em 12 meses, bem acima da inflação média.

         Mirella, do Santander, diz que os monitorados estão altos, mas pondera que eles têm suas particularidades. Alguns deles ainda trazem no cálculo em 12 meses fortes reajustes ocorridos em 2017, como é o caso da tarifa de água e esgoto, que subiu 10,5% em 2017 e, nos 12 meses até março, acumula avanço de 9,56%.

         Gás e gasolina acumulam 15% cada, e, plano de saúde, 13,51%. Apesar dos percalços, a inflação dos monitorados deve ceder a 4,9% no fechamento de 2018, na estimativa do Santander, de 8% em 2017. Ainda acima da inflação geral, estimada em 3,5% pelo banco.

         Para abril, os economistas estimam aceleração do IPCA entre 0,30% e 0,40%, puxada por um aumento mais forte no grupo alimentos e bebidas, que subiu 0,07% em março, e pelo reajuste anual dos medicamentos, de 2,84%, que deve resultar em alta de 1,95% no IPCA, segundo o Santander.

         O banco estima alta de 0,37% na inflação do período. Alimentação no domicílio, afirma Mirella, deve subir 0,5%, puxada por hortifrúti, após a deflação de 0,18% em março.

         A Mapfre Investimentos também estima 0,40% para o IPCA de abril, o que aceleraria o indicador em 12 meses para 2,95%. Em maio, a projeção preliminar é de alta de 0,42%, levando o índice a 3,06%.

         Além dos alimentos e remédios, Alexandre Almeida, analista da instituição, cita como pressão para abril o aumento sazonal do vestuário e a volta das passagens aéreas ao terreno positivo. Em março, a queda desse item tirou 0,07 ponto percentual do IPCA, principal impacto de baixa. Para maio, energia elétrica vai fazer diferença se passar da bandeira verde para amarela. "Estamos entrando no período de seca e haverá o reajuste das tarifas da mineira Cemig", observa.

         O cenário da Mapfre é de uma inflação de 3,7% em 2018, com Selic a 6,25% no fim do ano. Quanto aos preços administrados, que em 12 meses rodam bem acima da inflação média, a Mapfre também estima alta de 5%, ante 8% em 2017. Entre os fatores que devem desacelerar esse grupo de preços são os reajustes mais comedidos de gasolina e energia elétrica, principalmente.

         No ano passado, o aumento de impostos sobre os combustíveis no segundo semestre ajudou a pressionar a inflação dos monitorados, o que não se espera que ocorra novamente em 2018.

         A GO Associados prevê inflação um pouco menor, em torno de 0,30%, neste mês. "Apesar das pressões em medicamentos e alimentos, o IPCA deve continuar confortável", afirma Luiz Fernando Castelli, economista da consultoria. (do Valor Econômico)

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