Investidor-âncora ajuda a viabilizar emissões de ações

A operadora de saúde Hapvida pode ter investidores-âncora em sua oferta inicial de ações (IPO). O processo de reservas e definição de preço termina na sexta-feira e, segundo duas fontes, a gestora americana ThirdPoint e as brasileiras M Square e Truxt avaliam participar da operação.

         Elas cogitam a entrada como âncoras, mas ainda não há definição -- essas gestoras podem acabar entrando apenas com pré-reserva, quando não há compromisso em contrato específico com a oferta, de acordo com os interlocutores. Outros investidores também discutem a respeito de a empresa "ancorar" a oferta.

         A operadora Intermédica também está nesse processo para seu IPO e pode fechar com investidores-âncora até o fim desta semana. O Valor Econômico apurou que um dos investidores interessados na ancoragem é a gestora Dynamo. Segundo fontes ligadas às operações, a Hapvida tem atraído fortemente investidores locais, enquanto a Intermédica está majoritariamente com estrangeiros.

         No início de abril, o banco Inter, que será listado na B3 no dia 30 de abril, anunciou que as gestoras Squadra e Atmos poderão ficar com quase 30% da oferta ao preço médio por ação. Se a demanda for maior e o preço subir, ficam desobrigadas de fazer a compra.

         "A ancoragem costuma ser um bom sinal para outros investidores, já que indica ser maior a possibilidade de a oferta acontecer", diz Leonardo Rufino, gestor de renda variável da Pacífico Gestão de Recursos. "Já para a gestora que ancora, é uma oportunidade de entrar com uma participação mais relevante."

         Quanto mais volátil o cenário para ofertas, mais as empresas procuram investidores-âncora, que garantem, em média, 30% da operação. É uma forma de viabilizar o IPO e segurar o preço, por exemplo, em cenários em que há incerteza política ou uma sequência de desistências de ofertas.

         Na maior parte das vezes, os âncoras garantem o preço médio da faixa indicativa da oferta. Se a demanda for alta e a ação sair no teto dessa faixa, o âncora tem a opção de reduzir sua fatia ou nem sequer entrar na operação.

         Foi o que aconteceu em 2015 com a oferta da PAR Corretora. O IPO saiu no preço máximo e a gestora Gávea, que tinha se comprometido como âncora, acabou não virando acionista.

         No ano passado, a gestora americana Oppenheimer, apesar de não ter negociado de antemão entrar como âncora na oferta do Carrefour no Brasil, acabou viabilizando a operação.

         A gestora fez uma pré-reserva de última hora, mas que representava 15% da oferta e deu folga aos bancos e à empresa para não ter que mexer nos termos da proposta. Por isso, alguns bancos consideram que a gestora atuou como uma espécie de âncora nessa operação.

         Se a demanda for fraca, os gestores podem ajustar as participações calculadas -- ficar com um percentual maior pelo mesmo montante de investimento prometido ou desistir, caso não haja um volume mínimo.

         No caso da oferta do banco Inter, ao preço médio, o volume será de R$ 727,3 milhões -- em caso de demanda mais fraca, os âncoras colocaram como condição de entrada uma captação total mínima de R$ 500 milhões.

         Segundo dois diretores de banco de investimento e três advogados, esse é o modelo ideal de operação. Os bancos colocam duas equipes para trabalhar nessas operações: a de mercado de capitais, que toca o IPO, e a de fusões e aquisições, que coordena o contrato com os âncoras -- quando fechados antes do prospecto preliminar. Isso significa, para os bancos, faturar nas duas pontas.

         A primeira operação desse tipo no mercado brasileiro foi feita em 2013, no IPO da empresa de milhagens Smiles. A gestora General Atlantic assegurava R$ 400 milhões ao preço mínimo da faixa, que ia de R$ 20,70 a R$ 25,80. A ação acabou saindo a R$ 21,70 e a gestora resolveu ajustar o preço.

         A General Atlantic repetiu o modelo no ano seguinte, quando ancorou a oferta da Ouro Fino, único IPO de 2014. A gestora ficou com quase metade da oferta: R$ 200 milhões dos R$ 418 captados. Ou seja, sem o âncora, a operação não teria saído. "A definição prévia do preço do âncora pode acabar balizando o preço de entrada para outros investidores", pondera Wagner Salaverry, sócio da gestora Quantitas.

         Advogados de escritórios especializados em mercado de capitais tentam convencer a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a incluir regras específicas para estimular esse tipo de operação. Isto ocorre porque as ofertas com âncoras tendem a passar por um escrutínio maior dos investidores profissionais, que avaliam a companhia em detalhes antes do IPO. Eles argumentam que, para o regulador, a chancela de uma gestora com reputação conhecida seria um indicativo a mais de que a ofertante não tem fraude no balanço, por exemplo.

         Em outros países, ofertas ancoradas têm regras diferenciadas. Nos Estados Unidos, o âncora pode ter desconto em relação aos demais investidores, por garantir de antemão uma fatia relevante.

         No Brasil, o âncora tem que entrar no mesmo preço dos demais investidores. Na bolsa de Hong Kong também há regras específicas. O preço tem que ser o mesmo da oferta, mas pode haver uma diferença no custo de estruturação do IPO.

         Como regra geral, o âncora tem um período de seis meses de restrição para negociação das ações após o IPO. Mas isso pode ser redefinido em comum acordo entre bancos, empresa e investidores.

         No Brasil, esse período tem sido definido caso a caso pelos investidores, a partir de seis meses. No Banco Inter, os âncoras ficarão restritos a esses 180 dias. Mas nas operações da Smiles e da Ouro Fino, a GA ficou com um período mais longo de "lock-up", de nove meses em cada uma delas. (do Valor Econômico)

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