Incertezas devem interromper a queda dos juros bancários

A forte instabilidade nos mercados deve interromper o processo de redução das taxas de juros cobradas pelos bancos, que começava -- ainda que timidamente -- a ganhar corpo. As instituições anunciaram nas últimas semanas uma série de cortes nas taxas das principais linhas ao consumidor e pequenas empresas, desde o crédito imobiliário até o cheque especial.

            Esse movimento agora fica comprometido pela disparada das taxas futuras de juros, uma das referências para o spread. Com a expectativa de que o cenário permaneça incerto durante o período eleitoral, executivos das instituições veem pouco espaço para novas mudanças nas taxas no curto prazo.

            Mesmo antes da piora recente nos mercados, os juros cobrados pelos bancos não vinham acompanhando a redução da taxa básica de juros (Selic) na mesma proporção. O juro médio dos financiamentos com recursos livres encerrou abril em 41% ao ano, queda de 0,4 ponto percentual em relação ao mês anterior. No ano, porém, as taxas ainda registram alta de 0,7 ponto, de acordo com o Banco Central.

            Aos poucos, porém, os cinco grandes bancos de varejo -- Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Santander -- começaram a anunciar uma série de cortes nas taxas em linhas para pessoas físicas e empresas. No crédito imobiliário, as taxas caíram para abaixo de 9% ao ano no Sistema Financeiro de Habitação (SFH), que financia imóveis avaliados em até R$ 950 mil.

            Os bancos diminuíram também os juros em linhas como crédito consignado, financiamento de veículos, capital de giro e até no cheque especial. As condições, como de praxe, variam de acordo com o perfil do cliente, por isso a taxa anunciada muitas vezes não é a que o cliente obtém no balcão da agência ou no aplicativo do celular.

            "Com a melhora consistente da inadimplência, conseguimos repassar esse benefício para o consumidor com a redução das taxas", afirma Eurico Fabri, vice-presidente do Bradesco. O banco anunciou corte nos juros do crédito consignado de 1,99% para 1,80% ao mês. A instituição também reduziu os juros no financiamento imobiliário, de 9,30% para 8,85% ao ano, e para a compra de veículos -- a taxa mínima passou de 0,95% para 0,89% ao mês.

            O banco concentrou os cortes nas linhas nas quais pretende crescer e que contam com menor inadimplência, segundo Fabri. Para ampliar as concessões, o banco não fez mudanças na política de crédito além da redução das taxas. "A melhora no perfil dos tomadores com a recuperação da economia tem levado ao aumento nas aprovações pelo banco", afirma.

            A turbulência nos mercados, que deve se estender durante o período eleitoral, limita o espaço para quedas adicionais nos juros, mas a tendência de longo prazo ainda é positiva, segundo Fabri.

            Mais do que a redução da taxa em si, o Santander tem procurado oferecer opções mais baratas de crédito, afirma Eduardo Jurcevic, superintendente-executivo de produtos de crédito do banco.

            "Se o cliente é elegível ao consignado, que é a linha com menor custo, o banco não vai fazer outra oferta até que ele tome toda a margem", diz. Dependendo do convênio, o executivo afirma que as taxas no consignado podem chegar a 1,30% ao mês. No crédito imobiliário, o banco reduziu em abril as taxas de 9,49% para 8,99% ao ano.

            Depois de priorizar no último ano as linhas que consomem menos capital, a Caixa Econômica Federal anunciou a redução das taxas cobradas nas linhas de crédito imobiliário do SFH (de 10,25% para 9% ao ano) e no capital de giro para micro e pequenas empresas, que passa a ter juro a partir de 0,95% ao mês. Nos últimos 12 meses, o saldo de financiamentos do banco público para as companhias menores recuou 16,1%.

            A Caixa deve manter o foco no financiamento imobiliário e para infraestrutura e promover cortes nas taxas dos demais produtos de maneira prudente, segundo o presidente do banco público, Nelson Antônio de Souza.

            "Não reduzimos juros por reduzir", afirmou, em entrevista coletiva na divulgação do balanço do primeiro trimestre. Ele disse que o objetivo não é ser o banco com menor taxa, mas com taxas competitivas. Banco do Brasil e Itaú Unibanco também promoveram reduções nas taxas em linhas como crédito imobiliário, consignado e capital de giro para empresas.

            Como era de se esperar, os bancos não estão dispostos a abrir mão de suas margens de lucro para reduzir os juros dos financiamentos. No primeiro trimestre, a margem financeira dos cinco grandes bancos, que inclui o resultado com crédito antes das despesas com provisão contra calotes, atingiu R$ 67 bilhões, queda de 1,3% em relação ao mesmo período do ano passado.

            A expectativa dos executivos é de  que a queda da inadimplência e o aumento do volume de novos empréstimos nas linhas de pessoas físicas e pequenas empresas, que são mais lucrativas, compensem o corte recente das taxas.

            Para o executivo de um grande banco, que pediu para não ser identificado, uma redução maior dos depósitos compulsórios, em particular nos depósitos a prazo, ajudaria a estimular a queda dos juros nas linhas de crédito. Mas todo esse cenário muda com a turbulência recente nos mercados.

            As linhas de crédito com taxas mais altas, como o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito, entraram na mira do BC. Dentro da agenda de redução dos spreads bancários, o regulador determinou o prazo máximo de 30 dias de permanência no rotativo do cartão de crédito. Após esse prazo, as instituições passaram a ser obrigadas a migrar a dívida para um crédito parcelado, com taxas mais baixas.

            Antes que o BC fizesse o mesmo com o cheque especial, os bancos se anteciparam e anunciaram uma autorregulação. Pelas novas regras, que entram em vigor em julho, as instituições deverão oferecer opções mais baratas de crédito caso o cliente use mais de 15% do limite por um período superior a 30 dias. A adesão, porém, não é obrigatória, como no rotativo. (do Valor Econômico)

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