FMI alerta que crescimento global tem prazo de validade

O Fundo Monetário Internacional (FMI) vê o crescimento global com força neste e no próximo ano, com as principais economias tendo um desempenho acima de seu potencial.

         O documento "Perspectiva da Economia Mundial" (WEO, na sigla em inglês), divulgado nesta terça-feira, mantém a expectativa de expansão do PIB mundial em 3,9% para 2018 e 2019, mas com revisões para cima do crescimento dos países mais ricos e alguns emergentes. No entanto, prevê uma desaceleração nos anos seguintes e alerta que uma guerra comercial poderia contribuir para essa menor tração da atividade econômica global.

         O documento, chamado de "Ascensão Cíclica, Mudança Estrutural" mostra que o crescimento de 2018 e 2019 será alcançado devido a fatores circunstanciais.

         "Esse crescimento é apoiado por um forte impulso (de 2017), pelo sentimento favorável no mercado, pelas condições financeiras estáveis e as repercussões domésticas e internacional da política fiscal expansiva nos Estados Unidos. A recuperação parcial do preço das commodities também deve permitir condições de melhora gradual nos exportadores", avaliou o fundo.

         No ano passado, o crescimento mundial foi de 3,8%, o maior desde 2011. Tanto para o conjunto de países ricos como o de emergentes, o FMI acredita que as condições que propiciarão essa expansão não vão se manter e por isso recomenda que essas economias se preparem para a próxima fase.

         “O bom tempo atual não irá durar por muito tempo, mas políticas sólidas podem ampliar a recuperação da economia enquanto reduzem os riscos de uma perturbadora reversão. Os países precisam remodelar seus amortecedores fiscais, ter reformas estruturais e conduzir com cautela a política monetária em um ambiente que ainda é complexo e desafiador” — disse Maurice Obstfeld, economista-chefe do FMI.

Dívida elevada. O FMI volta a reafirmar ainda que além dos fatores que vão afetar o crescimento de cada grupo de países (ricos e emergentes), as condições fiscais da economia mundial, com um nível de dívida elevado tanto nos setores privado como público, a normalização da política monetária (aumento dos juros nas grandes economias), a geopolítica e as tensões em relação ao comércio global são outros fatores de risco para a economia global.

         “A perspectiva de restrições comerciais e contra-restrições ameaça minar a confiança e descarrilhar o crescimento global prematuramente. Enquanto alguns governos estão buscando reformas econômicas substanciais, o risco de uma disputa comercial desvia os passos construtivos que algumas economias precisariam fazer agora para melhorar e garantir as perspectivas de crescimento”, explicou.

         O economista lembra que as principais economias estão "flertando" com uma guerra comercial mesmo em um momento de expansão econômica generalizada.

         Desde fevereiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenta colocar em ação um plano de restrições ao comércio exterior, em especial com a China, o que tem causado temores em relação aos efeitos das medidas já anunciadas e das retaliações.

         Para Obstfeld, embora a expansão das economias dependa de um maior comércio entre países, o sentimento de otimismo da população das economias avançadas em relação aos benefícios das políticas de integração vem perdendo força.

         “Muitos lares viram um menor ou nenhum benefício do crescimento. Mas essa tendência é mais por causa da tecnologia do que do comércio. A desilusão dos eleitores aumenta a ameaça de desenvolvimento político que poderia desestabilizar uma série de políticas econômicas no futuro, indo além da política comercial”, disse.

Projeções de crescimento. No grupo de países ricos, a expectativa de crescimento para 2018 passou para 2,5%, um ganho de 0,2 ponto percentual na comparação com à última atualização de projeções feita pelo fundo para as principais economias do mundo. Se for levado em conta o último WEO, de outubro de 2017, a mudança é ainda maior, de 0,5 ponto percentual.

         O maior crescimento para essas economias vem dos Estados Unidos e da Zona do Euro, mas o Reino Unido também dá a sua contribuição. Para o fundo, no entanto, esses países estão crescendo acima do seu potencial e logo vão passar por um processo de desaceleração.

         Para o conjunto de países emergentes beneficiados pela melhora do preço das commodities, a expectativa é de um crescimento de 4,9% neste ano e 5,1% em 2019. China e Índia lideram essa expansão, mas é o Brasil que tem apresentado a maior melhora nas projeções.

         Mas, apesar de perspectivas positivas no curto prazo, o FMI lembra que a situação no futuro é menos otimista. Entre os países ricos, o envelhecimento da população, a queda de participação no mercado de trabalho e baixo crescimento da produtividade são os fatores de maior risco. Tais fatores tornam mais difícil alcançar as taxas de crescimento per capita registradas no período anterior à crise financeira de 2008.

         Entre os emergentes, alguns vão se beneficiar da recuperação do preço das commodities, mas ainda assim precisarão diversificar sua economia para impulsionar o crescimento futuro.

         “No FMI, temos dito que as atuais expansões cíclicas oferecem aos formuladores de políticas a oportunidade ideal para tornar o crescimento de longo prazo mais forte, mais resiliente e mais inclusivo” — resumiu Obstfeld. (de O Globo)

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