Crédito não decola e é gargalo para crescimento da economia

expectativa é de que avance quase 3% neste ano. Mesmo assim, o estoque de crédito não cresce.

       Um dos motores do crescimento nos anos anteriores à crise, o crédito parou exatamente no momento em que a taxa Selic, os juros básicos da economia, está no menor patamar histórico: 6,5% ao ano.

       A proporção da massa de crédito em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 49,6% em dezembro de 2016 para 46,4% em fevereiro deste ano, o último dado disponível. Menor oferta de crédito, inadimplência ainda elevada, mais de 13 milhões de desempregados e as incertezas fiscais e políticas explicam esse movimento, dizem especialistas.

        Em 2016 e 2017, as concessões de crédito totais, tanto para empresas como para famílias, caíram 3,5% e 0,5%. Espera-se alta neste ano, mas, com o cenário indefinido, as projeções variam dos 4,6% da LCA Consultores aos 8,5% da Tendências Consultoria. Os grandes bancos estimam alta de 5%.

       “O principal sentimento em relação a qualquer coisa é a cautela. Isso sem falar no desemprego. Houve melhora no último trimestre do ano passado, mesmo que somente de vagas informais.

       Todos acreditavam que a melhoria seria mais vigorosa, mas não está sendo — diz Nicola Tingas, presidente da Associação Nacional de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi).

       Ele cita ainda a antecipação da corrida eleitoral e a intervenção militar no Rio como eventos que estão mexendo com a economia. A redução da oferta de financiamentos é o obstáculo mais evidente para a expansão do crédito.

       Na avaliação de João Augusto Salles, especialista em bancos da consultoria Lopes Filho & Associados, o crédito só vai acelerar se as instituições financeiras aumentarem as linhas no segundo semestre.

       “Os bancos ainda estão muito seletivos e criteriosos na oferta de crédito, especialmente para empresas, segmento onde houve muitas renegociações de dívidas. O risco corporativo ainda é grande”, diz Salles, lembrando que a definição do quadro eleitoral pode melhorar (ou não) a expectativa para 2019.

       “A expectativa é de que a oferta de crédito só acelere no segundo semestre, quando o horizonte econômico para 2019 ficar mais claro. Se continuar na velocidade atual, o crédito ficará estável neste ano.

        Só no último trimestre de 2017, os bancos passaram a prever aumento da oferta de financiamentos, o que não acontecia desde 2011, diz Vitor Velho, economista da LCA Consultores:

       “O Banco Central faz pesquisa qualitativa com os bancos sobre expectativa de oferta e de demanda de crédito. A avaliação varia de -2 a 2. Pela primeira vez desde 2011, está no terreno positivo, em 0,14. No primeiro trimestre de 2015, chegou à mínima histórica, -1,2. Isso também explica um pouco esse movimento do crédito andando de lado.

       Segundo o economista Estêvão Kopschitz, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), enquanto o estoque de crédito para pessoas físicas vem avançando por volta de 3% frente ao ano anterior desde outubro, para as empresas ainda está caindo cerca de 10% desde julho passado:

       “Estava caindo 15% e passou a cair 10%. Esperávamos que as quedas fossem diminuindo, mas não foi o que aconteceu.

       O saldo de crédito para as empresas em relação ao PIB caiu de 24,7% em dezembro de 2017 para 21,3% em fevereiro. Já para pessoas físicas subiu, no mesmo período, de 24,9% para 25,1%.

       Velho, da LCA, acredita que as empresas, com a queda dos desembolsos do BNDES em cerca de 22% em 2017 e os juros mais altos cobrados pelo banco de fomento, voltaram-se para o mercado de capitais. A captação no ano passado subiu 70%:

       “Sem o BNDES, as empresas buscam outras fontes. Há um redesenho do mercado de crédito”.

       Nas projeções de Salles, da Consultoria Lopes Filho, as operações de crédito devem ficar estáveis no primeiro semestre. Salles ressalta, contudo, que quando se olha o desempenho do crédito num prazo mais longo, veem-se avanços:

       “O saldo do consignado subiu 7,9% em 12 meses, o que mostra que há movimento mais forte em algumas linhas”, diz Salles, afirmando que a projeção do BC é de alta de 3%.

       Velho lembra que o BC também reduziu a parcela dos depósitos à vista retida pelo banco, o chamado compulsório, de 40% para 25%. Reduziu também a da poupança, de 24,5% para 20%:

       “Essa mudança costuma impulsionar o crédito”, observa.

       Isabela Tavares, economista da Tendências, está otimista com o desempenho do crédito, mesmo com esse começo de ano tímido no indicador. Ela estima que a economia crescerá 2,8%, enquanto as concessões de crédito subirão 8,5%.

       “Novas concessões estão crescendo num ritmo mais forte. E a tendência é que a taxa de juros este ano fique num patamar mais baixo do que em 2017, o que deve estimular novas concessões” — diz Isabela, admitindo que o desemprego elevado trava o crescimento mais forte do crédito.

Reação. Para André Gamerman, economista da ARX Investimentos, a recuperação incerta da economia também impede reação mais forte do crédito. A falta de clareza sobre a solução para o rombo fiscal, com meta de déficit de R$ 159 bilhões, sem a reforma da Previdência, também freia o apetite pelo crédito, principalmente das empresas, para fazer investimentos:

       “A recuperação ainda está no começo. Estão todos muito reticentes, as famílias diminuíram o comprometimento da renda com empréstimos (passou de 22% da renda em 2015 para 19,9%) mas ainda estão endividadas. Além disso, os juros subiram muito anteriormente e baixaram pouco (na ponta).

       Em 2012, os juros para o consumidor estavam em cerca de 40%. Atualmente, estão em 57,7%. O aposentado José Guilherme Soares ainda está cauteloso. Por medo dos juros altos, evita contrair dívidas:

       “Os juros nas compras a prazo são muito altos. Às vezes, você acaba pagando duas vezes o valor da mercadoria, então não compensa”, diz.

       O avanço forte do crédito no auge do crescimento, quando o país crescia a dois dígitos, na opinião de Kopschitz, formou uma bolha que vai afetar o crescimento do PIB agora:

       “Quando há um crescimento excessivo do crédito, o país passa por um longo período de ajuste. Famílias e empresas precisam se reestruturar e ficam mais cautelosos”.

       Dados da Serasa Experian apontam que o número de pessoas que buscaram crédito aumentou 13,2% em março, na comparação com fevereiro. Já em relação a março de 2017, a demanda do consumidor por crédito avançou 5,5%. No primeiro trimestre deste ano, a demanda por crédito cresceu 12,5%. Foi o melhor resultado para um primeiro trimestre nos últimos sete anos. (de O Globo)

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