Bancos voltam ao mercado de bônus no exterior após 2 anos

Com cenário internacional favorável, os bancos voltaram ao mercado de bônus depois de mais de dois anos ausentes, em busca de aumentar a eficiência do capital com uma parcela em dívida.

Ontem, o Itaú Unibanco levantou US$ 1,25 bilhão com títulos perpétuos subordinados, elegíveis para compor o capital de nível 1, considerado o de melhor qualidade segundo as regras de Basileia 3.

A lógica é simples: neste momento a dívida externa possui um custo muito mais baixo que o capital próprio. No caso do maior banco privado do Brasil, o retorno pago na captação ficou em 6,125%, menos da metade do custo de capital próprio, estimado em 14%, segundo o balanço do terceiro trimestre.

Tal diferença levou o banco a emitir, mesmo tendo uma grande folga de capital e, agora, a expectativa é de que a instituição aumente a distribuição de dividendos para reduzir sua estrutura.

Como essa captação melhora o custo de capital, trazendo maior eficiência, o retorno ao acionista acaba sendo mais alto. "É uma questão de ROE (retorno sobre patrimônio líquido) versus capital, um 'trade off' entre custo de capital próprio e de dívida", afirma uma fonte próxima da operação, que preferiu não ser identificada.

No mercado, apenas Banco do Brasil e BTG Pactual possuíam títulos dessa natureza, mas só os do BB eram usados como parâmetro pelos investidores. "Os bancos viram que esses bonds eram negociados com yield de 7% e perceberam uma oportunidade", completa.

Segundo esse interlocutor, outras instituições financeiras podem seguir o mesmo caminho. Na última semana, o Banco Votorantim fez uma emissão com papéis de características similares. A instituição levantou US$ 300 milhões com bônus perpétuos, com retorno de 8,25% e demanda de mais de US$ 1,5 bilhão.

Outro ponto positivo dessas captações é que, por se tratar de bônus perpétuos, as instituições não ficam expostas à variação cambial e não precisam gastar com operações de swap para se proteger. O papel do Itaú, por exemplo, dá oportunidade de recompra depois do quinto ano e, no momento em que o cenário estiver mais propício, os títulos podem ser tirados de circulação.

O Credit Suisse estima que a instituição poderia ter até US$ 3,4 bilhões de capital de nível 1 formado por bônus perpétuos. O cálculo leva em conta a meta do banco de ter o capital de nível 1 de 13,5%, revelada na última Apimec, e a estimativa de que até 1,5 ponto percentual dessa meta pode ser na forma de bonds, se considerados os ativos ponderados pelo risco segundo o balanço do terceiro trimestre.

A casa diz ainda que a emissão pode gerar a mesma quantidade de recursos a serem devolvidos aos acionistas. "O banco deixa bem claro que não pretende ter capital em excesso, em relação aos níveis estabelecidos, sem uso planejado e que qualquer excesso será devolvido", destacou o Credit em relatório.

Apesar do espaço para uma emissão maior e a demanda alta pelos papéis, que passou de US$ 7 bilhões, a escolha foi por oferecer um volume mais baixo para testar o mercado, segundo outro interlocutor.

Depois dessa leva de ofertas, o mercado passará a ter uma melhor referência de preços para emissões futuras envolvendo bônus perpétuos de banco público, instituição privada de grande porte e de médio porte.

O BTG Pactual está em um movimento diferente. A instituição fechou na última semana a recompra de US$ 390 milhões do total de US$ 1,3 bilhão em bônus perpétuos em circulação, aproveitando o preço baixo desses ativos. Na ocasião da divulgação do balanço do terceiro trimestre, o presidente Roberto Sallouti afirmou que a recompra poderia ter impacto de um ponto percentual no índice de Basileia. A instituição terminou o trimestre com um índice de 17,3%.

Ao mesmo tempo, o banco de investimentos planeja fazer uma emissão de dívida no exterior, mas de títulos que não irão compor o capital. Uma série de encontros com investidores está sendo promovida nos Estados Unidos, Europa e Ásia e deve acabar amanhã.

Se confirmada, será a primeira emissão do BTG desde 2014 e marcará a volta do banco ao mercado internacional desde a reestruturação feita após a prisão de André Esteves, no âmbito da operação Lava-Jato. Em agosto, o ex-presidente foi absolvido pelo Ministério Público Federal.

Também neste ano, em outubro, o Banco do Brasil levantou US$ 1 bilhão em emissão de bônus com vencimento em 2024.

O ambiente continua favorável para emissores brasileiros no exterior. Ontem, os contratos de credit default swap (CDS) de cinco anos do Brasil eram negociados a 163 pontos-base, menor patamar desde dezembro de 2014.

Com o cenário positivo, quatro emissões de bônus foram feitas desde o início da semana passada, incluindo Cemig e Minerva. (do Valor Econômico)
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