A Selic menor recomenda aplicações de maior risco

O Comitê de Política Monetária (Copom) deve reduzir, na noite desta quarta-feira, a taxa básica de juros do país, a Selic, de 7,5% para 7% ao ano — menor patamar da história —, segundo a expectativa dos economistas ouvidos pela pesquisa Focus, do Banco Central.

Com essa redução, a oitava em um ano, a poupança deve aumentar sua vantagem competitiva com relação aos tradicionais fundos DI, que cobram taxas e não contam com a vantagem da isenção de imposto de renda.

Porém, diante da rentabilidade menor de todas as aplicações que acompanham os juros básicos, inclusive a caderneta, especialistas recomendam maior exposição a ativos de risco, como fundos multimercados e ações, para quem quiser manter retornos maiores.

Segundo simulação feita pela Anefac, associação que reúne executivos de finanças, a poupança baterá todos os fundos DI que cobram taxas de administração a partir de 2% ao ano (comum entre os clientes com baixo volume de recursos nos principais bancos) em todos os prazos de resgate.

Apenas os fundos que cobram taxa de 1% para baixo renderão mais que a poupança em todos os cenários.

Na Poupança nova — depósitos feitos a partir de maio de 2012 —, o investidor que colocar R$ 10 mil com a Selic a 7% teria ao fim de um ano um total R$ 10.490, segundo a Anefac. Em um fundo com taxa de 2% ao ano, este investidor teria um montante de R$ 10.441.

Diferentemente da poupança, os fundos de investimento sofrem tributação de imposto de renda, e a alíquota depende do prazo — quanto mais rápido for o resgate, maior será o percentual descontado. Aplicações com resgate em até 6 meses pagam 22,50% de IR, enquanto investimentos que ficam mais de 2 anos parados têm alíquota de 15%. Os fundos ainda pagam taxa de administração, da qual a poupança está a salvo.

É por causa dessa taxa e do imposto que um fundo DI, cuja rentabilidade bruta deve ser o mais próximo possível de 100% da Selic, pode acabar perdendo para a poupança, que rende o equivalente a 70% da Selic acrescidos da Taxa Referencial (a TR, que é quase zero).

É essa fórmula que rege os retornos da caderneta desde que a Selic caiu a 8,5%, o chamado "gatilho", que foi criado em 2012. Quando a Selic está acima daquele patamar, a rentabilidade é fixada em 0,5% ao mês, mais TR.

"Quanto à rentabilidade das cadernetas de poupança, mesmo com a redução da Selic, ela vai continuar se destacando frente aos fundos de renda fixa pelo fato de não pagarem imposto de renda nem taxas de administração. Isso deve provocar reduções nos custos das taxas de administração dos bancos para não perderem clientes", previu Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor da Anefac, em relatório.

No caso dos CDBs, títulos emitidos pelos bancos cuja rentabilidade costuma ser atrelada a um percentual do CDI (taxa que acompanha de perto a Selic), a Anefac observou que o aplicador só baterá a poupança se conseguir um papel que renda mais que 85% do CDI.

Arriscar mais. Até o fim de novembro, os fundos DI acumulam rentabilidade média de 9,57% no ano, e a poupança, de 6,16%, segundo cálculos do administrador de investimentos Fábio Colombo.

Com a sucessiva redução da Selic — que ficou em 14,25% ao longo de quase todo o ano de 2016 —, os patamares estão muito abaixo dos registrados no ano passado. Em 2016, os fundos DI renderam, em média, 14,16%, enquanto a poupança obteve retorno de 8,30%. Por isso, os especialistas têm recomendado a complementação da carteira com ativos de maior risco e, consequentemente, retorno potencial mais elevado.

“Temos indicado a diversificação com produtos de maior risco, não tem muito como fugir disso. Isso não quer dizer que o investidor deva se desfazer dos fundos DI ou da poupança. Ele deverá sempre ter aplicações atreladas ao DI na carteira porque é necessário ter liquidez (possibilidade de retirar o dinheiro a qualquer momento sem o risco de ter prejuízo). Mas terá de se arriscar mais, sim” -- explicou Virgínia Prestes, professora de finanças da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

Uma das opções, afirmou Virgínia, são os fundos multimercados, que têm maior liberdade para elaborar suas carteiras. No ano, os multimercados do tipo livre, o mais popular do mercado, acumulam rentabilidade média de 11,63%, segundo a Anbima, associação que reúne instituições financeiras.

“Para escolher um bom fundo multimercado, o aplicador deve examinar a consistência dos seus retornos. Se um fundo existe há cinco anos, o investidor deve checar se ele conseguiu entregar resultados em diferentes cenários, por exemplo” -- acrescentou a professora da Faap. “É preciso também observar seu nível de volatilidade, que é verificável na lâmina do fundo. Quanto maior a volatilidade, maior tende a ser o ganho em caso de valorização dos ativos, mas também é maior a perda potencial. O aplicador precisa saber se ele está confortável com essa volatilidade e se isso é condizente com o seu perfil de investimento”.

Outra alternativa com maior risco é o mercado acionário, disse. Este ano, a Bolsa bateu seu recorde histórico e acumula alta de 20,45%. Segundo Virgínia, o cenário hoje é favorável para aplicação de uma parcela da carteira nesse tipo de ativo.

“Na renda variável, a perspectiva é bastante promissora, uma vez que estamos em um momento de retomada do crescimento do país. É recomendável ter um percentual do portfólio exposto a esses papéis, sim” — completou. (de O Globo)

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